segunda-feira, 23 de julho de 2012

Prudência

Olhei bem nos seus olhos desprezíveis. Pronto para explodir. Diria que era um inútil. Sua vida só prestava para atrapalhar a existência alheia. Por culpa dos iguais a ele, o mundo estava uma porcaria.

Mas pensei. De modo exageradamente rápido. Pensei. Todo o trabalho que tivera para chegar até lá. Os incontáveis obstáculos vencidos. Minha persistência sobrehumana. Continuei firme, mesmo quando fora desencaminhado. Não podia perder tudo.

Uma palavra errada, e o dono daquele olhar irritante não me atenderia com a devida benevolência. Adotaria postura minuciosa ao extremo. Vetaria qualquer pedido que noutra circuntância seria acatado, dadas as pequeninas imperfeições de sempre.

Olhei bem nos seus olhos vingativos. Com a voz calma, elogiei sua gravata vulgar. Obtive explicações sobre a personalidade de um nó e a tão ambicionada assinatura.

segunda-feira, 2 de abril de 2012

No centro

Apenas caminho. Um passo, depois outro. Tento evitar qualquer pensamento. Desvio os olhos. Não quero saber.

O centro é belo. A noite escura entrecortada pelas luzes amarelas. Largo de São Francisco, rumo da Sé. Minha vida é teórica, meus problemas filosóficos.

Quase piso em um corpo. Vivo, acho. Dormindo. Enrolado em um cobertor cinza. Cinza claro. Deveria ser mais escuro. Agora percebo um samba ao fundo. Samba pasteurizado, nem imagino de onde.

A aglomeração ao lado é por causa da sopa. Tantos. O som parece vir da kombi. Talvez de mais longe.

Pronto. Agora já vi. E senti. Aquele conhecido aperto no peito. Nada mais fará sentido. Fracassamos. Fizemos tudo errado.

O centro agora é triste. Eu somente devia ir ao metrô. Mas não consegui. Por mais um bom tempo, não chegarei a lugar algum.

sábado, 28 de janeiro de 2012

Levados pelo vento

Vejo o escritor ao fundo, parado, observando. Sempre assim. Distante, porém captando a essência. Calado, porém prestes a compor obras que falam por todos. À espera, mesmo já tendo encontrado.

É fim de tarde e a cidade começa a esvaziar. Noto em seu semblante a presença de algo, uma passagem, uma história que pretende contar. Tudo se desenha aos poucos, ainda sem começo, meio ou fim. Duas palavras aqui, algumas ali, e os parágrafos brotarão em breve. Será durante a noite, em frente ao computador. Sua arte se consumará.

Há pouco, momentos de muitas vidas passaram por ele. Seus olhos rápidos tocaram em uma moça e sentiram, de imediato, toda a angústia que permeia seu cotidiano. Pousaram em um rapaz e perceberam a força com que move seus dias. Notaram a indiferença recíproca do casal que se apresenta apaixonado. Ou o beijo nunca trocado por dois quase amantes sempre desencontrados, na mesma esquina, por um intervalo de segundos.

Gostaria que muitos fossem como ele. Tivessem a mesma sensibilidade e, talvez, o mesmo talento. O mundo, se não seria melhor ou pior, ao menos pareceria mais profundo, mais intenso e menos caótico. Pareceria regido por uma harmonia universal, costurando cada instante com o outro, numa totalidade coesa. Haveria um pouco mais de compreensão, quem sabe de amor.

Mas ele é raro. Espécie em extinção. Tantos méritos para nenhum reconhecimento. Percebo que pensa seriamente em desistir. Deixar calar sua vocação, não ouvir a voz dos outros que escuta em si. Estancar frases e versos. Fechar para sempre as páginas de seus futuros suspiros, em branco.

Lamento que tudo seja assim. Não tenho forças para mudar as coisas. Sou apenas mais um grão de pó levado pelo vento.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Pouco ou nada

Debaixo do viaduto. Abraçaram-se muito. Três ou quatro. Somados, talvez nem um de verdade. Normalmente, era assim. Não importa. Estavam felizes.


Enquanto os fogos brilhavam no céu, os estouros ecoavam pelo horizonte, clarões coloridos, tudo parecia diferente. Naquele momento. Virada de ano cristão. Muitos prédios, muitos apartamentos, muitas famílias, algumas casas. Alegria sincera ou fingida.


Entre eles, quase não havia comida. Algo de restos e caridade. Alguma bebida, que sempre se arranja. No mais, apenas o instante. E era demais. Materializando-se na força de abraços. Que logo cessaram.


Não se ouviram promessas de ano novo. Não se ouviram pedidos. Nem surgiu a esperança entre eles. Afinal, não deviam pensar no futuro. Talvez nem devessem pensar. Existir era tudo.

sábado, 12 de março de 2011

Concebido

Foi assim. Mesmo. Achei que tudo deveria. Ser feito naquele momento. Mas não ainda. Estava feito.


Agora. Era só curtir. Nada mais. Restava. Caminhar tranquilo. Finalmente. Cabeça. Livre. Sentindo. A brisa da paz. Soprando suave.


Duas bicicletas. Uma de cada lado de mim. Passam vagarosas. Loira e morena. Qual das duas? Dúvida cruel. Em um instante. A oportunidade está perdida.


Haverá outras. Não. Faltam oportunidades. As ondas suaves. Levam e trazem. Nunca se esquecem. Insistentes. Mesmo na praia quase deserta.


É a vida. Nada. Precisa ser feito. Naquele momento. Mas é como se. Estivesse. Tudo feito. Perfeito. Na cabeça. Pois achei.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Enredado

Pediu licença e deixou a sala. Parecia calmo. Não estava. Ao contrário, chegava próximo ao desequilíbrio completo. Talvez nunca mais voltasse a ser o mesmo. Mas nada transparecia. Num esforço sobrehumano.


Entrou rapidamente no banheiro. Estava vazio. Suspirou, olhando-se no espelho. Tristeza. Um homem sério. Zeloso com sua imagem. Sem ser rico, precisava ser respeitado. Sempre fora. Sempre.


Agora, aquela situação. Humano, errara. Deixara-se seduzir. Fraco. Colocara sua família em risco. Único passo em falso. Seu castelo podia desmoronar. Sua fortaleza podia ruir. Não sobraria pedra sobre pedra. Só o vazio da poeira.


Alguém entrava. Saiu com as mãos ainda molhadas. Seguiu pelo corredor. Som confuso de aulas diversas. Chegou ao pátio. Do outro lado, ela sorria enquanto conversava. Entre amigas. Aquele mesmo brilho que o fascinara. Uma aura encantadora no ar.


Comprou um café. Não conseguia desviar os olhos. Cada gesto gracioso acelerava seu coração. Era tarde. Caíra na rede e não saberia desvencilhar-se. Inebriado.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Pasto

Agora, aquelas duas desconhecidas vão se sentar na minha mesa. Terei que comer ouvindo a conversa alheia. Nada mais desinteressante do que a vidinha dessas assalariadas de classe média. Tudo padronizado, regrado, consumido e consumado. Horrível!


É, já estou arrependido. Não sei explicar, mas às vezes tenho uma recaída e frequento lugares repletos de trabalhadores e estudantes. Aliás, recaída é boa! Nunca fui pobre, assalariado ou classe média! Mas, enfim, quando dou por mim, estou numa dessas praças de alimentar cão que copiam o refeitório do exército de países de terceiro mundo comendo uma deprimente macarronada química. Como se eu precisasse vir a esses ambientes sujos e barulhentos, para ter um choque de realidade e ver o abismo colossal que há entre mim e os shoppings. É muita mediocridade!


De um lado, aqueles que pensam que são ricos. Recebem um tostãozinho no começo do mês, do patrão ou do governo, compram bobagens como carro, celular, roupa, e vão seguindo adiante, sem rumo. Doutro lado, aqueles que pensam que são inteligentes, vão aos cinemas, ao teatro, à papelaria, estudam numa universidadezinha pública qualquer, talvez a quingentésima do mundo, suspiram nomes de diretores e artistas, se embebedam nos finais de semana, pra fazerem tudo de novo, sempre, o ano inteiro.


Eu não tive paciência para universidades, cursos superiores, esse rol de formações profissionalizantes ou imbecilizantes. Suportei um ano de filosofia. Oscilei entre professores superficiais e incapazes de se comunicar, colegas fumantes e viajantes, entre o inútil e o obsoleto. Preferi continuar vivendo por prazer, lendo para saciar minha sede interior, e nada mais. Claro que nunca cogitei de uma formação profissionalizante, como direito ou letras. Não preciso disso. Nem disto aqui, este coletivo de desajustados seriados!


Sou muito rico. Poderia comprar o Frei Caneca inteiro se quisesse. Poderia derrubar esta porcaria e construir um poço de petróleo. Jogar dinheiro ao ar. E nada mudaria em meu patrimônio. Mas não gosto de lidar com a moeda, não gosto de comprar ações, imóveis ou  empresas aéreas. Prefiro apenas levar a vida. Um dia aqui, outro em qualquer lugar do mundo que tenha cidades. Pois não tolero essa coisa de voltar às árvores e viver na natureza, matando mosquitos e passando frio. Prefiro as cidades, as grandes, as metrópoles. Para ficar sozinho com mais tranquilidade.


Falando nela, a minha acaba agora. Felizmente não sou o tipo dessas siliconizadas anônimas. Não me visto bem. Não ligo para pedaços de pano. Pareço pobre. Elas nem pediram licença para ocupar metade da minha mesa. Falarão de suas bobagens cotidianas e nem notarão minha presença. Serei obrigado a ouvi-las. Daqui, vou para a farmácia. Talvez precise de um antiácido mais tarde.